domingo, 12 de abril de 2009

Gêneros Textuais e Seqüências Didáticas no Programa Escrevendo o Futuro






O Programa Escrevendo o Futuro, iniciativa da Fundação Itaú Social, foi criado para contribuir para a melhoria do ensino de Língua Portuguesa, procurando incentivar professores e alunos a realizarem um trabalho produtivo de leitura, escrita e oralidade, buscando somar esforços para a melhoria da qualidade de ensino no país. As ações realizadas no âmbito do Programa são fundamentadas em metodologias de ensino de língua de eficácia comprovada e visam oferecer aos professores instrumentos para apoiar seu trabalho em sala de aula.

A Escola e o Ensino de Língua Portuguesa
Atualmente, o acesso à escola da maioria das crianças e jovens brasileiros (97%) está garantido. No entanto, essa conquista não tem sido acompanhada, na mesma proporção, de oportunidade de aprendizagem efetiva para todos. Assim, o grande desafio para a sociedade hoje é buscar uma educação de qualidade. Sem dúvida, o ensino de Língua Portuguesa é a principal ferramenta para obtenção dessa qualidade. Todos sabemos que sem ler e escrever bem o aluno não consegue aprender os conteúdos das demais áreas do conhecimento.

A aprendizagem pouco efetiva dos alunos brasileiros, verificada nos testes nacionais, pode estar ligada à forma como o ensino de leitura e produção de textos vem sendo realizado na escola. Apesar de ser considerada, pelos especialistas, a principal agência social no processo de letramento das crianças, a escola brasileira ainda está longe de alcançar os resultados esperados nesse campo.

Talvez isso ocorra porque, na maioria das vezes, os alunos são solicitados a escrever de forma quase mecânica textos escolares padronizados, que têm como leitor apenas o professor, executando uma tarefa cuja finalidade é a obtenção de uma nota. As boas notas, em geral, são obtidas se os textos apresentarem letra boa, poucos erros de ortografia e emprego razoavelmente correto da gramática. A leitura escolar, da mesma forma, também segue práticas restritivas, determinadas por objetivos semelhantes ao da escrita e tendo como único avaliador o professor. Quase sempre essas práticas de ensino despertam pouco interesse no aluno, que acaba associando leitura e escrita com tarefas pouco significativas, repetitivas e monótonas, perdendo o interesse por elas.

De um modo geral, podemos dizer que faz parte da cultura escolar reproduzir práticas tradicionais, mesmo que essas, ao longo de centenas de anos, tenham apresentado resultados ruins. Atualmente é possível substituir essas práticas por outras mais significativas e eficazes, uma vez existem muitas propostas renovadas de ensino no campo do ensino da Língua Portuguesa, com bons resultados comprovados.

Diversidade de Gêneros Textuais - Instrumento Privilegiado de Ensino
As referências mais atuais sobre um ensino eficaz de Língua Portuguesa, entre elas os Parâmetros Curriculares Nacionais produzidos pelo MEC, recomendam que o aluno trabalhe na escola com uma ampla diversidade de gêneros de textos, literários e não literários, orais e escritos, e que leia, discuta e escreva com finalidades definidas, para ouvintes e leitores de dentro e fora da escola que, de alguma forma, dêem uma resposta ao que ele escreveu.

Assim, em vez de fazer as tradicionais redações sobre as férias ou o fim de semana que apenas o professor vai ler, a produção escrita dos alunos pode ser orientada para, por exemplo, ser uma carta de solicitação pedindo à diretora da escola a liberação do uso da quadra aos domingos, ou a preparação de cartazes para uma campanha de saúde que tem como finalidade mobilizar a comunidade, ou a escrita de poemas para serem lidos num sarau da igreja.

Os textos produzidos nessas condições ficam muito mais significativos do que aqueles feitos para a troca exclusiva com o professor, para obtenção de uma nota. Com a perspectiva de comunicação mais ampla e objetiva, os textos dos alunos deixam de ser uma escrita tipicamente escolar e passam a ser uma escrita produzida na escola, mas com significado tanto para quem escreve como para quem lê.

A diversidade de gêneros textuais sugerida como instrumento de trabalho, tem algumas finalidades importantes. Três delas estão destacadas abaixo.

Colocar o aluno em contato com gêneros textuais que são produzidos fora da escola, em diferentes áreas de conhecimento, para que ele reconheça as particularidades do maior número possível deles, e possa preparar-se para usá-los de modo competente quando estiver em espaços sociais não escolares.
Aproximar o aluno das situações originais de produção dos textos não escolares, como situações de produção de textos jornalísticos, científicos, literários, médicos, jurídicos, etc. Essa aproximação proporciona condições para que o aluno compreenda como nascem os diferentes gêneros textuais, apropriando-se, a partir disso, de suas peculiaridades, o que facilita o domínio que deverá ter sobre eles.
Trabalhar com gêneros textuais permite a integração das atividades nas aulas de Língua Portuguesa, sem a costumeira divisão artificial em exercícios separados de leitura, escrita e gramática. O trabalho com gêneros favorece também a realização de atividades com a oralidade, quase sempre esquecidas na prática escolar.
Seqüências Didáticas - Projetos de Trabalho bem Planejados
As produções de texto que seguem essa proposta de ensino não podem ser realizadas de imediato a partir de um comando único, do tipo "escreva uma redação sobre...". Elas exigem planejamento, preparação e realização de uma série de atividades que podem durar vários dias, dependendo dos objetivos que se têm. O conjunto dessas atividades integradas constitui-se como um projeto de ensino e tem sido chamado de seqüência didática .

O exemplo para essas práticas vem dos escritores reconhecidos como bons autores, sejam eles produtores de literatura, de textos jornalísticos, científicos ou outros. A experiência demonstra que nenhum escritor competente escreve sem fazer planos para realizar seu texto e sem reescrevê-lo muitas vezes, até que o resultado pareça satisfatório para a comunicação com os leitores que ele imagina que vai ter.

A prática sugerida pelo Programa Escrevendo o Futuro, a partir dessas referências, supõe que o professor organize projetos de escrita com seus alunos, envolvendo-os no planejamento, criando razões para a escrita, estabelecendo roteiros de tarefas que devem ser realizados numa seqüência didática , ensinando-os a avaliar sua escrita a partir de critérios definidos e a refazê-la quando necessário até obter resultado satisfatório para a comunicação com seus leitores, dentro das finalidades que o gênero de texto escolhido para o trabalho exige.

Os textos produzidos a partir desses projetos demonstram aos alunos que escrever é um trabalho como outro qualquer, que todos podem fazer bem, se tiverem critérios e métodos adequados. A escrita deixa de ser uma espécie de "dom divino" que só alguns receberam, para tornar-se um instrumento de cidadania que todos podemos desenvolver.

O Tema do Programa Escrevendo o Futuro
Como a significação é essencial para que os projetos de escrita tenham bons resultados, é muito importante que o tema escolhido para os projetos de ensino de Língua Portuguesa seja relevante para os alunos. Nada poderia ter uma importância maior do que falar sobre seu mundo próximo, junto do qual os alunos constroem sua identidade.

Em razão disso, o tema escolhido pelo Programa Escrevendo o Futuro foi "O lugar onde vivo". A escolha do tema tem diferentes finalidades: levar as crianças e professores a observarem seus municípios com um "olhar estrangeiro", ou seja, tomando distância desse lugar para avaliar suas potencialidades e necessidades de maneira objetiva ou, ainda, expressar seus sentimentos na escrita de modo mais subjetivo. São propostos três gêneros diferentes, e o professor e seus alunos podem escolher qualquer um deles para produzir o texto que concorre ao Prêmio:

o artigo de opinião, por oportunizar a tomada de posição e a crítica, instrumentos essenciais para o exercício da cidadania;
as memórias, que possibilitam a reconstituição histórica do passado de um lugar, contribuindo para a construção da identidade cidadã;
a poesia, que permite expressar pela arte os sentimentos em relação a um lugar.
Os resultados das escritas feitas no espaço do Programa Escrevendo o Futuro têm sido muito animadores. Os textos produzidos pelos 21 finalistas do Prêmio Escrevendo o Futuro 2004 estão publicados neste site , para que todos possam comprovar que as crianças brasileiras são muito capazes de escrever bem. Basta que tenham professores interessados e projetos de ensino eficazes.

Fonte: http://www.escrevendoofuturo.org.br/artigos/artigos_det_02.htm

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